A Guerra da Ucrânia – uma visão abrangente

(criado em 15.12.2025)


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Encontrar palavras onde outros só queriam usar armas sempre foi um dos meus princípios. Com os anos de experiência de vida, aprendi uma verdade amarga: as guerras são frequentemente avaliadas pelos historiadores em termos de estratégias e mudanças geopolíticas, mas para alguém que tenta juntar os pedaços, a guerra é acima de tudo o monumental fracasso da razão.

Não vejo este conflito com preconceitos. Vejo a Ucrânia a lutar pela sua própria existência, pela sua cultura e pelas suas crianças. E vejo a Rússia, presa numa espiral imperial que devora o seu próprio futuro, bem como o do seu vizinho. Quando olho nos olhos das delegações de ambos os lados das negociações, vejo o mesmo cansaço, a mesma dor profunda e indizível, mesmo que escondida por máscaras de raiva e orgulho.

Antes de podermos especular sobre como esta matança terminará, temos de nos forçar a encarar o horror. Temos de fazer um balanço da situação atual, por mais sóbria e cruel que seja. Porque a paz nunca pode ser construída sobre ilusões.

O balanço do terror: o status quo

Estamos numa guerra de desgaste cuja intensidade é sem precedentes na Europa desde 1945. A realidade no terreno é difícil de descrever em palavras, mas os números falam por si.

  • O período de tempo: a invasão oficial e massiva da Rússia começou em 24 de fevereiro de 2022. Mas, para a diplomacia, a morte já havia começado em 2014, com a anexação da Crimeia e a guerra no Donbass. Portanto, não estamos a olhar para dois, mas para mais de dez anos de conflito.

  • As perdas humanas (militares): Os números exatos são o segredo mais bem guardado de ambos os lados, uma névoa da guerra. No entanto, estimativas conservadoras dos serviços secretos ocidentais apontam para que a Rússia tenha perdido muito mais do que 350 000 a 500 000 homens (mortos e feridos). Do lado ucraniano, também falamos de perdas devastadoras, que chegam a centenas de milhares (mortos e feridos). O que estes números não mostram é a perda de toda uma geração. Faltam os pais, os engenheiros, os artistas de amanhã.

  • As vítimas civis: A ONU registou mais de 10 000 civis mortos confirmados, mas sabe que o número real é muito superior, especialmente nas áreas ocupadas e destruídas, como Mariupol. De acordo com dados ucranianos (Procuradoria-Geral da Ucrânia, em 27 de novembro de 2025), pelo menos 16.000 civis foram mortos por ataques russos. Milhões de pessoas carregam cicatrizes físicas e psicológicas.

  • A terra minada: a Ucrânia é hoje o país mais minado do mundo. Estima-se que 30% do território ucraniano (uma área tão grande quanto a Flórida ou duas vezes a Áustria) esteja contaminada com minas e munições não detonadas.

    • A Rússia construiu linhas de defesa maciças com quilómetros de profundidade (a chamada Linha Surowikin), que consistem em densos campos minados.
  • A Ucrânia também teve de minar vastas áreas para repelir avanços. Isto tornará o país inabitável ou inutilizável para a agricultura durante décadas.

    • De acordo com uma estimativa do governo ucraniano, com a capacidade atual, levaria várias décadas (até 70 anos) para limpar todas as áreas contaminadas — o custo total seria estimado em cerca de US$ 34 a US$ 38 bilhões.
  • Destruição da infraestrutura: Os danos materiais ascendem a centenas de milhares de milhões. Cidades inteiras como Bachmut, Avdiivka ou Mariupol deixaram de existir como locais habitáveis; são agora paisagens lunares. Além disso, a infraestrutura energética ucraniana foi sistematicamente atacada, o que dificulta extremamente a luta pela sobrevivência da população civil durante os invernos.

  • Fuga e deslocamento: Houve o maior fluxo de refugiados na Europa desde a Segunda Guerra Mundial. Cerca de 6 milhões de ucranianos fugiram para o estrangeiro, outros 3,7 milhões são deslocados internos no seu próprio país.


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«Na guerra, matam-se pessoas
que não se conhecem,
por causa de pessoas que se conhecem,
mas que não se matam.»

A herança da terra fronteiriça: uma nação entre as pedras de moinho

Para compreender a raiva e a determinação que se vêem hoje nos olhos dos ucranianos, é preciso entender que o seu país não é apenas um local geográfico, mas um ponto de intersecção histórico. O próprio nome – Ukrajina – significa «terra fronteiriça». E as fronteiras raramente são locais pacíficos na Europa; são cicatrizes da história.

Em Moscovo, ouvi muitas vezes a narrativa da «unidade histórica», da Rus de Kiev como o berço comum, do qual a Ucrânia teria surgido apenas como uma espécie de «Pequena Rússia» (Malorossija). Para o Kremlin, a independência ucraniana é muitas vezes apenas um acidente histórico, um capricho de 1991.

Mas essa visão não é apenas arrogante, é cega para os séculos em que a Ucrânia respirou um ar completamente diferente do de Moscovo.

A divisão da alma: Ocidente e Oriente

Enquanto a Rússia construía ao longo de séculos uma estrutura de poder centralista e autocrática, grande parte da atual Ucrânia – especialmente o oeste e o centro – estava profundamente integrada na República Polaco-Lituana e, mais tarde, no Império Habsburgo.

  • Influência cultural: Em Lviv (Lemberg) ou Czernowitz, ainda hoje se sente a herança da Europa Central: os cafés, a arquitetura, a tradição da autogestão burguesa e, muito importante, a Igreja Unida (Greco-Católica). Estas regiões fizeram parte do Renascimento e do Iluminismo europeus, enquanto a Rússia permaneceu frequentemente isolada.
  • O mito político dos cossacos: Na Ucrânia central, com o Hetmanato dos cossacos, surgiu desde cedo uma tradição de «democracia defensiva». Os cossacos elegiam os seus líderes. Este desejo de liberdade, que questiona as autoridades, faz parte até hoje do ADN ucraniano e difere fundamentalmente da conceção russa do Estado, que se baseia na obediência ao czar (ou secretário-geral, ou presidente).

A língua como campo de batalha

Nada temem mais os impérios do que a palavra falada que não conseguem controlar. A história da língua ucraniana é uma história de sobrevivência contra o silêncio imposto pelo Estado. É preciso conhecer o Ems Ukaz de 1876, um decreto do Czar Alexandre II, que proibia a impressão de livros, peças de teatro e até letras de canções em ucraniano. A língua foi difamada como um "dialeto camponês" para impedir o surgimento de uma cultura erudita moderna. O facto de hoje se falar ucraniano com orgulho em Kharkiv ou Odessa é, para Moscovo, não apenas uma mudança cultural, mas um ato político de rebelião.

O trauma do século XX: As "Bloodlands"

Nenhum diplomata pode falar sobre a Ucrânia sem mencionar a sombra de Estaline. O que aconteceu na década de 1930 envenenou para sempre a relação com Moscovo. O Holodomor (1932–1933), a fome artificialmente provocada, na qual o regime de Estaline confiscou os cereais do "Celeiro da Europa" para financiar a industrialização e quebrar a vontade de liberdade ucraniana, custou a vida a quase quatro milhões de pessoas. Foi um genocídio silencioso que ocorreu nas aldeias, enquanto o mundo desviava o olhar.

Este trauma é profundo. Quando os tanques russos atravessam hoje as aldeias ucranianas, as pessoas não veem apenas um exército – veem o regresso de um poder que já uma vez as tentou aniquilar.

A independência de 1991: Não um presente, mas uma missão

Quando a União Soviética colapsou, mais de 90% dos ucranianos votaram pela independência – também no leste, também na Crimeia (embora aí por uma margem menor). Mas o país permaneceu dividido durante muito tempo: economicamente muito ligado à Rússia, mas culturalmente a olhar cada vez mais para o Ocidente. A tragédia dos últimos 30 anos foi o facto de o Ocidente ver muitas vezes a Ucrânia como uma zona tampão e a Rússia vê-la como um vassalo fugitivo. Ninguém perguntou seriamente o que a própria Ucrânia queria ser, até que ela deu a sua resposta em 2014 no Maidan e mais tarde nas trincheiras: Nenhum vassalo. A mudança política de 2014, embora sustentada pela profunda desilusão da sociedade civil ucraniana com a corrupção, foi interpretada por alguns observadores como um golpe apoiado e ativamente influenciado por potências ocidentais.

Este é o fardo histórico que pesa sobre qualquer mesa de negociações. Não se trata apenas da adesão à NATO ou das fronteiras do Donbass. Trata-se do reconhecimento de uma identidade que se afirmou contra a extinção ao longo de séculos. Mas por que é a Ucrânia tão interessante?

O Bolo da Guerra: Os recursos estratégicos da Ucrânia

Sob a superfície das estepes ucranianas dormem tesouros que constituem, entre outras coisas, o valor geopolítico do país. A Ucrânia é designada como o "Celeiro da Europa" (trigo, milho), mas possui também mais de 5% dos recursos minerais mundiais. Numa escalada, não se trata apenas de território, mas do controlo económico destes recursos.

  • O Valor: Os recursos minerais da Ucrânia, incluindo ferro, titânio (estrategicamente importante para a aviação) e manganês, bem como matérias-primas críticas como lítio (produção de baterias) e terras raras (alta tecnologia, semicondutores), são estimados num valor de mercado de biliões de dólares americanos. A UE tem um interesse vital em explorar estas jazidas para reduzir a dependência da China e da Rússia.
  • As fatias do bolo na linha da frente: A tragédia da guerra é que as fatias mais valiosas do bolo situam-se maioritariamente na e ao longo da atual linha da frente ou já estão sob controlo russo.
    • Combustíveis fósseis: Segundo relatos, a Rússia controla a maior parte do carvão ucraniano (até 80%) e partes consideráveis das reservas de gás natural e petróleo, que se encontram tradicionalmente no leste e na plataforma do Mar Negro.
    • Metais críticos: Uma parte significativa das jazidas de lítio e terras raras, cuja exploração está ainda no início, situa-se na Ucrânia Central e Oriental. A Rússia controla, assim, uma parte significativa das reservas de metais e terras raras (cerca de 33% das terras raras e 42% dos metais).

O objetivo estratégico da Rússia na conquista do sul e do leste não é, portanto, apenas a criação de uma ponte terrestre para a Crimeia e o enfraquecimento da produção industrial ucraniana (aço), mas a apropriação permanente desta base de matérias-primas críticas. Quem controlar estas jazidas, controla uma chave para o futuro potencial industrial da Europa.

Resumamos na próxima secção a perspetiva de Putin.

A visão de Moscovo: Uma grande potência ofendida reage

Em conversas com altos representantes do Kremlin, e especialmente na aparição pública do próprio Presidente Putin, como na entrevista com Tucker Carlson, é apresentada uma visão claramente definida e historicamente carregada do conflito. Esta representação é a base operativa para a continuação da guerra e dirige-se principalmente a um público ocidental, que se pretende convencer da suposta culpa do Ocidente.

1. A justificação histórica: A Ucrânia como herança russa

Putin iniciou a conversa com uma longa "lição de história", que no fundo visa deslegitimar a soberania estatal da Ucrânia.

  • O legado de Lenine: A Ucrânia nas suas fronteiras atuais seria o produto da política bolchevique, especialmente de Vladimir Lenine, que – segundo a tese de Putin – teria criado artificialmente territórios que historicamente pertenciam à Rússia (especialmente todo o sudeste).
  • Unidade histórica: A Ucrânia seria historicamente uma parte da civilização russa, o berço comum estaria na Rus de Kiev. Uma Ucrânia independente, que se liberta da influência russa, seria assim uma traição à história comum e uma construção artificial.

2. A expansão da NATO para Leste como ameaça existencial

A acusação geopolítica central dirige-se contra a NATO. Putin não vê a expansão para leste como uma decisão livre de estados soberanos, mas como um cerco hostil e gradual da Rússia.

  • Promessas quebradas: O Kremlin afirma que líderes ocidentais (especialmente após a queda do Muro de Berlim) teriam dado promessas informais de que a NATO não se expandiria para leste. Estas promessas teriam sido sistematicamente quebradas, levando a uma perda de confiança que torna hoje as negociações quase impossíveis.
  • Armas na fronteira: A possível adesão da Ucrânia à NATO é apresentada como uma linha vermelha existencial. O estacionamento de infraestrutura da NATO ou sistemas de mísseis na Ucrânia forçaria Moscovo a agir preventivamente. A guerra de 2022 seria, portanto, uma reação forçada à ameaça na fronteira ocidental.

3. O Ocidente como mentor do derrube

O derrube do Maidan em 2014 não é visto no Kremlin como uma revolução do povo contra a corrupção, mas como um golpe encenado e financiado por serviços secretos ocidentais (Erro colossal – como Putin sublinhou).

  • Papel da CIA: Ao deporem um presidente pró-russo em 2014 através de protestos violentos, os EUA não teriam deixado à Rússia outra escolha senão proteger a sua própria segurança através da anexação da Crimeia e do apoio aos separatistas no Donbass.
  • Fascismo/Neonazismo: O governo ucraniano é retratado como infiltrado por "neonazis" – uma referência propagandística a grupos ultranacionalistas, que serve para enquadrar a guerra como uma desnazificação e desmilitarização.

4. As exigências para o fim do conflito

Putin sinalizou na entrevista que a Rússia estaria, em princípio, disposta a conversar, mas colocou condições inabaláveis que equivalem, de facto, a uma capitulação de Kiev:

  • Fim do fornecimento de armas: Os EUA e a Europa teriam de parar imediatamente de fornecer armas à Ucrânia. A guerra terminaria então "dentro de poucas semanas", uma vez que a Ucrânia não poderia sobreviver sem o apoio ocidental.
  • Reconhecimento da realidade: Um acordo de paz teria de reconhecer as novas realidades territoriais – os territórios anexados pela Rússia. Uma derrota militar da Rússia seria "por definição impossível".
  • Nenhum ataque a países da NATO: Putin assegurou que a Rússia não tem qualquer interesse em atacar a Polónia, a Letónia ou outros estados da NATO, desde que estes não ataquem a Rússia. Isto serve para apaziguar o Ocidente e semear dúvidas sobre a necessidade de mais ajuda à Ucrânia.

A leitura de Kiev e do Ocidente: Soberania, Direito e Luta Existencial

A perspetiva da Ucrânia, personificada pelo Presidente Zelensky, é uma de sobrevivência e de direito. É partilhada pela UE e pela NATO, mesmo que estes aliados tenham de calibrar o seu apoio sempre sob a espada de Dâmocles do perigo de escalada.

1. A posição de Zelensky: Luta existencial e clareza moral

Para Kiev, o conflito não é um jogo de xadrez geopolítico por esferas de influência, mas uma guerra de agressão ilegal e existencial.

  • O direito à autodeterminação: A Ucrânia insiste no direito fundamental de cada nação escolher o seu próprio caminho. A decisão pela Europa e pela NATO não foi tomada no Ocidente, mas em Kiev – primeiro no Maidan em 2014 e depois com uma maioria esmagadora em todo o país. A invasão russa é, assim, a tentativa de apagar este direito através da força bruta.
  • Rejeição de cedências territoriais: Zelensky sempre deixou claro que cedências de território (mesmo no âmbito de um plano de paz) estão fora de questão. O reconhecimento das anexações russas legitimaria o princípio de que as fronteiras na Europa podem ser alteradas pela força militar. Isto criaria um precedente que colocaria em perigo toda a arquitetura de segurança europeia.
  • Exigência de apoio máximo: A Ucrânia luta com armas ocidentais, mas com os seus próprios soldados e vítimas. A liderança em Kiev exerce, por isso, frequentemente críticas duras à hesitação do Ocidente, especialmente em relação à velocidade do fornecimento de armas e às restrições de uso. Exige-se não apenas o necessário, mas o máximo, para acabar com a superioridade aérea russa e recuperar o próprio território. O objetivo não é apenas a sobrevivência, mas uma vitória que restaure a integridade territorial total.

2. A postura da UE e do Ocidente: Princípios, Dissuasão e Solidariedade

A postura da aliança ocidental pode apoiar-se em três pilares: cumprimento do direito internacional, solidariedade com a Ucrânia e contenção estratégica da Rússia.

  • Condenação da guerra de agressão: A UE e os EUA condenam a guerra como uma violação flagrante do direito internacional e da Carta da ONU. Não existe justificação diplomática ou histórica para a invasão de um estado vizinho soberano. A alegação russa de "desnazificação" ou "cerco da NATO" é rejeitada como cínica propaganda de guerra.

  • Estratégia de apoio e sanções: A reação ocidental é dual:

    • Apoio a Kiev: Militar (armas, munições), financeiro (ajuda de milhares de milhões para o orçamento do estado) e humanitário (acolhimento de refugiados). O apoio visa capacitar a Ucrânia a impor custos tão elevados à Rússia que Moscovo considere um acordo de paz com base nas condições ucranianas.
    • Sanções contra Moscovo: As sanções visam enfraquecer massivamente a economia russa e a elite política para paralisar a maquinaria de guerra (Fonte 2.1).
  • A "Linha Vermelha" da escalada: O ato de equilíbrio diplomático central do Ocidente é evitar um confronto direto com a potência nuclear Rússia. O apoio é massivo, mas calibrado. Os países ocidentais não querem tornar-se partes na guerra. Por isso, houve durante muito tempo restrições no fornecimento de armas de longo alcance e na sua área de utilização. Esta hesitação é sentida em Kiev como um prolongamento da guerra, enquanto nas capitais ocidentais é considerada uma política de desescalada necessária.

  • O objetivo a longo prazo: Para a UE, não se trata apenas da Ucrânia, mas da restauração da ordem de segurança europeia. A UE deu à Ucrânia uma perspetiva de adesão clara (estatuto de candidato) e disponibiliza fundos avultados para a reconstrução, a fim de integrar o país firmemente na família europeia.

Apresentámos agora a situação inicial (factos), a profundidade histórica e as perspetivas dos dois principais atores (Moscovo e Kiev/Ocidente). A mesa está posta para a análise dos possíveis desfechos.

Excurso I: O Grande Ciclo da Mudança de Poder (segundo Ray Dalio)

Longe das emoções da guerra e da condenação moral, o lendário investidor Ray Dalio, com o seu conceito de "Principles for Dealing with the Changing World Order", fornece uma explicação sóbria e cíclica para a atual desordem global. Esta visão está profundamente enraizada em Moscovo e Pequim e influencia fundamentalmente as suas decisões.

Dalio argumenta que a ascensão e queda de impérios mundiais segue um "Grande Ciclo", que se estende por cerca de 250 anos e se caracteriza por marcadores específicos e recorrentes. Encontramo-nos, portanto, numa fase de transição altamente perigosa.

1. O Declínio (Decline) do Ocidente

Os EUA e a UE, que definiram a ordem mundial dominante (Pax Americana) desde 1945 e desde o fim da Guerra Fria, respetivamente, mostram, segundo Dalio, sinais clássicos de uma fase avançada do ciclo descendente:

  • Decadência social: Nas potências em declínio, as pessoas tendem coletivamente a não trabalhar tanto. Estão menos dispostas a sacrifícios. Ainda assim, querem manter o seu nível de vida habitual.
  • O problema da dívida e o sistema monetário: As potências em declínio financiam-se cada vez mais através de dívidas. Os bancos centrais veem-se forçados a imprimir enormes quantidades de dinheiro para servir as dívidas. Isto leva a uma desvalorização das moedas de reserva (especialmente do dólar americano) e ao esvaziamento do sistema financeiro, que constitui a base do seu poder global.
  • Divisão interna: As sociedades ocidentais sofrem com as maiores disparidades de riqueza, valores e política em mais de 100 anos. Esta divisão interna manifesta-se em dissidência política, correntes políticas extremas, reduz a produtividade, enfraquece a governabilidade e desvia assim as potências das suas verdadeiras tarefas de política externa. Uma superpotência dividida internamente projeta fraqueza para o exterior.
  • Perda da superioridade militar: Embora os EUA sejam nominalmente a potência militar mais forte, concorrentes como a China (e em partes a Rússia) estão a recuperar rapidamente em termos tecnológicos e de armamento estratégico.

2. A Ascensão (Rise) da China

A ascensão da China é vista como a característica central e irrefutável da atual ordem mundial.

  • Avanço económico e tecnológico: A China investe massivamente em educação, tecnologia e infraestrutura. Ultrapassa os EUA em áreas importantes da economia e ganha constantemente vantagem em indústrias do futuro, o que leva a uma deslocação do eixo de poder económico global.
  • Estabilidade e Unidade: Enquanto o Ocidente é atormentado por conflitos internos, a China é apresentada como uma potência que, através de uma liderança forte e centralizada, consegue seguir uma estratégia coerente a longo prazo.

3. O papel da Rússia: A luta pelo mundo multipolar

Dentro deste vácuo de poder e da transição para o sistema multipolar, o papel da Rússia torna-se claro. A Rússia pode não atuar militar ou economicamente ao nível dos EUA ou da China, mas está determinada a afirmar o seu estatuto de grande potência e polo político na nova ordem mundial.

  • A tentativa de "Reset": A invasão da Ucrânia é, deste ponto de vista, menos um confronto local, mas uma tentativa agressiva de destruir a ordem mundial pós-soviética liderada pelos EUA. A Rússia atua aqui como um catalisador disruptivo, que explora a fraqueza do Ocidente (o seu foco em problemas internos) para empurrar a NATO para fora da sua esfera de influência.
  • O Eixo da Necessidade: A Rússia junta-se de facto – embora não ideologicamente – à ascensão chinesa e forma um "Eixo da Necessidade" com a China e outras potências antiocidentais. A guerra na Ucrânia acelera assim a divisão do mundo em dois blocos concorrentes.

A guerra na Ucrânia é, nesta perspetiva macro-histórica e económica, apenas o primeiro combate quente de uma mudança global de poder. Não se trata primariamente da Ucrânia, mas de saber se os EUA, como potência em declínio, conseguem ainda impor a sua posição na ordem internacional, ou se Moscovo sucumbe e com isso termina a era do domínio ocidental.

Excurso II: O motor de inflação da política monetária da UE

O Professor Hans-Werner Sinn, um dos mais proeminentes economistas alemães e presidente de longa data do Instituto ifo, analisou criticamente a política monetária do Banco Central Europeu (BCE) e os seus efeitos na inflação – e consequentemente na estabilidade social no Ocidente – e previu há anos um desenvolvimento inflacionário que entretanto se confirmou. A sua exposição fornece um contexto importante sobre o porquê de a capacidade financeira de resistência do Ocidente não ser infinita e estar em consonância com o declínio acima descrito.

O Balanço do Quantitative Easing

Sinn argumenta que a base para a onda de inflação atual foi lançada muito antes da guerra na Ucrânia, nomeadamente durante e após a crise financeira de 2008 e massivamente na pandemia de Corona.

  • A Primeira Multiplicação de Dinheiro: Para estabilizar os mercados financeiros e apoiar a economia (palavra-chave: Quantitative Easing – QE), o BCE comprou títulos de dívida pública em grande escala. Com isso, foi injetada liquidez no sistema, o que levou a um aumento enorme da base monetária. O balanço do BCE cresceu explosivamente.
  • A "Avalanche de Dinheiro" em espera: O decisivo nesta primeira fase foi, no entanto: O dinheiro recém-criado ainda não entrou diretamente no circuito económico (a chamada área M3, o dinheiro nas mãos da população e das empresas). Permaneceu, sim, como excesso de liquidez nas contas dos bancos comerciais, que estavam depositadas nos seus respetivos bancos centrais nacionais (por exemplo, o Bundesbank). Enquanto esta liquidez estivesse imobilizada, não tinha efeito inflacionário no sentido de um aumento dos preços ao consumidor. Representava, contudo, uma avalanche de dinheiro adormecida, apenas à espera de ser desencadeada. O BCE tinha assim largado as rédeas da força travadora das taxas de juro.

A conversão de dinheiro do banco central em dinheiro em circulação

O verdadeiro surto inflacionário surge, segundo Sinn, apenas quando os bancos comerciais utilizam estas reservas excedentárias para conceder créditos, ou quando os estados bombeiam ativamente os fundos para a economia. Aqui entram em jogo a guerra na Ucrânia e a reação a ela:

  • O Choque e a vontade de gastar: A crise do Corona e a guerra na Ucrânia (especialmente a crise energética) forneceram o gatilho. Os estados tiveram de investir massivamente em alívios energéticos, ajuda aos refugiados e, acima de tudo, no rearmamento militar.
  • Fundos especiais e armamento: Exemplificativo é o fundo especial alemão de 100 mil milhões de euros para a Bundeswehr. Tais despesas estatais gigantescas, feitas adicionalmente à dívida normal, aumentam massivamente a procura no mercado, sem que a produção (a oferta) possa aumentar com a rapidez correspondente.
  • O Efeito Multiplicador: Quando o estado adjudica contratos para armas ou infraestrutura (por exemplo, terminais de GNL), o dinheiro flui dos bancos para a economia, transforma-se em salários e lucros e, portanto, em poder de compra. Este dinheiro entrou agora em circulação.

A conclusão para a inflação

A inflação que vivemos desde 2022 é, desta perspetiva, uma combinação de:

  1. Lado da Oferta: Problemas nas cadeias de abastecimento e a escassez de energia.
  2. Lado da Procura: Os programas de despesa induzidos pelo estado, que transformaram o dinheiro do banco central imobilizado em dinheiro ativo em circulação e, assim, aumentaram fortemente a massa monetária M3 em relação à quantidade de bens disponíveis.

A relevância diplomática: A capacidade do Ocidente de financiar a Ucrânia a longo prazo depende diretamente da credibilidade da moeda e da estabilidade social. Se a multiplicação do dinheiro levar a uma inflação descontrolada, isso enfraquece a consistência interna da aliança ocidental (ver a tese de Dalio sobre a divisão interna). O apoio a Kiev torna-se, neste caso, não apenas um fardo moral, mas cada vez mais um fardo económico doloroso, que pode colocar em questão a determinação política.

O entrelaçamento mortal: Fraqueza cambial como catalisador de conflito

A credibilidade da moeda é o último e muitas vezes estagnado pilar do poder global. A decadência descrita por Ray Dalio e o declínio do Ocidente manifestam-se principalmente na erosão do sistema monetário. Esta erosão cria uma dinâmica perigosa que alimenta diretamente o potencial de conflito na política externa – especialmente na guerra na Ucrânia.

1. A vulnerabilidade do dólar e a reação dos BRICS

O dólar americano domina desde o sistema de Bretton Woods (e definitivamente desde a década de 1970) como moeda de reserva e de troca global. Permite aos EUA financiar défices e usar sanções como arma (Weaponization of the Dollar).

  • Teoria de Dalio: O dólar como armadilha da dívida: Dalio vê a criação excessiva de dinheiro pela Reserva Federal dos EUA (Fed) como o início do fim do ciclo do dólar. A confiança numa moeda diminui quando as dívidas aumentam excessivamente e as taxas de juro são mantidas artificialmente baixas para servir essas dívidas.
  • A Consequência Geopolítica (Desdolarização): O Ocidente usou as sanções contra a Rússia para cortar Moscovo do sistema financeiro global. Do ponto de vista da Rússia, da China e de muitos países do Sul Global (BRICS), esta é a prova definitiva de que o dólar já não é neutro, mas um risco político.
    • Consequência: Estes países aspiram a uma "Desdolarização". Realizam o comércio cada vez mais nas suas próprias moedas (por exemplo, Yuan) ou em ouro. A criação de um sistema financeiro paralelo, não ocidental (o CIPS da China, aumento das compras de ouro) é uma reação direta às sanções.
    • Potencial de conflito: Se o papel do dólar como Ultima Ratio da política de sanções diminuir, o Ocidente perde a sua espada não militar mais afiada. O limiar para agressões (como a invasão russa) baixa, uma vez que o colapso económico temido pode ser atenuado.

2. A estabilidade do Euro e o papel como "moeda da paz"

O Euro está sob a pressão do erro de construção descrito pelo Prof. Sinn: a falta de unidade fiscal emparelhada com os riscos da dívida dos estados membros.

  • Erosão interna: O BCE atua num campo de tensão permanente entre as preocupações com a inflação do Norte da Europa e a carga da dívida do Sul da Europa. Isto leva a uma condução cada vez mais política da moeda e à perda de confiança.
  • Efeito na ajuda à Ucrânia: O apoio financeiro à Ucrânia e o rearmamento do flanco leste da NATO são itens de despesa imensos, que têm de ser financiados através de nova dívida ou do balanço do BCE. A solidariedade intra-europeia ("divisão interna" de Dalio) fica sob pressão quando os custos da guerra e a inflação ameaçam a estabilidade social. O apoio político a Kiev é diretamente proporcional à facilidade financeira com que essa ajuda pode ser prestada.
  • Potencial de conflito: Uma União Europeia financeiramente fraca e dividida internamente parece a Moscovo menos determinada e menos capaz de manter as sanções e o fornecimento de armas a longo prazo. A expectativa da Rússia de que o Ocidente se canse primeiro devido a problemas económicos baseia-se nesta fraqueza cambial fundamental.

3. A dinâmica de conflito da mudança de poder

Dalio chama às fases de transição no Grande Ciclo – o momento em que a potência em declínio (EUA/Ocidente) percebe a potência em ascensão (China/BRICS) como ameaça – os períodos mais perigosos da história.

  • A guerra na Ucrânia é, como já mencionado, um conflito por procuração nesta mudança de poder.
  • A moeda como árbitro: A força (ou fraqueza) do dólar e do euro decide a velocidade da mudança de poder. Se o Ocidente perder as suas moedas e, com elas, o seu poder de compra e poder de sanção, isso acelera a ascensão do Oriente.
  • O potencial de conflito na política externa aumenta exponencialmente porque a velha ordem tem de ser defendida com a força das armas quando os instrumentos do poder financeiro falham. A confiança decrescente no dinheiro fiduciário do Ocidente força os atores a apostar novamente mais no Hard Power (militar).

Excurso III: O Campo de Batalha de Vidro – A mudança na guerra

O conflito na Ucrânia evoluiu rapidamente para a primeira guerra abrangente e de alta intensidade da era digital. É uma montra para a guerra futura e prova que muitos dogmas militares do século XX se tornaram obsoletos. A conclusão central: o campo de batalha tornou-se de vidro.

1. O drone como rainha do combate

A mudança de maior alcance é o papel omnipresente dos veículos aéreos não tripulados (UAVs) – desde minúsculos drones FPV (First-Person View) para ataque frontal até drones de reconhecimento de alta precisão.

  • O fim da camuflagem e do engano: Em conflitos anteriores, a camuflagem e o esconderijo ofereciam grandes hipóteses de sobrevivência. Na guerra da Ucrânia, isso é quase impossível. Milhares de drones monitorizam permanentemente a linha da frente e a retaguarda. Qualquer movimento maior – um comboio de tanques, uma base de abastecimento, uma peça de artilharia – é detetado quase imediatamente. O princípio do ataque surpresa é massivamente dificultado, uma vez que o céu já não pertence apenas aos aviões tripulados, mas é dominado por uma multiplicidade de sensores pequenos e baratos.
  • A "Kill Chain" encurta-se: Os drones identificam um alvo, transmitem as coordenadas em tempo real à artillerie ou ao próprio drone de combate. O intervalo de tempo entre a deteção e a destruição – a chamada "Kill Chain" – encurta-se de horas para minutos ou até segundos.

2. A desvalorização da blindagem e da massa

A força militar tradicional – tanques pesados, posições protegidas – é desvalorizada pela tecnologia de drones.

  • A fraqueza vinda de cima: Os drones são muitas vezes pequenos e fáceis de ignorar. Os seus ataques dirigem-se contra a blindagem mais fina de um tanque ou veículo: a parte superior. Um drone FPV barato pode guiar uma arma precisa para as grelhas de ventilação ou para o teto da torre de um tanque de 10 milhões de euros e colocá-lo fora de combate. Isto põe em causa as lógicas de investimento militar dos últimos 50 anos.
  • A proteção através da mobilidade: A melhor proteção já não é a blindagem espessa, mas o movimento constante e o abandono rápido da posição (Shoot-and-Scoot). Quem permanecer num local por mais do que alguns minutos arrisca-se a ser detetado por um drone e alvejado pela artilharia.

3. A luta pelo espectro: Guerra Eletrónica (EW)

Para diminuir o perigo dos drones, a guerra eletrónica (EW) assumiu um papel central:

  • Bloqueadores (Jamming): Ambos os lados utilizam bloqueadores massivos para cortar as ligações de rádio dos drones inimigos, falsificar a sua navegação GPS ou interromper a sua comunicação. Esta luta pelo espectro eletromagnético é muitas vezes invisível, mas decisiva para o sucesso militar.
  • Resiliência dos sistemas: A capacidade de superar ataques EW (por exemplo, através de comunicação por satélite como Starlink ou frequências em constante mudança) é hoje tão importante como a qualidade da própria arma.

4. Homem e IA à beira da automação

A guerra da Ucrânia mostra que a eficiência militar hoje depende fortemente da interligação dos campos de batalha.

  • Comando em rede: Com a ajuda de tecnologias civis e aplicações, os comandantes podem ver as posições das próprias tropas, os alvos inimigos (marcados por drones) e as unidades de artilharia disponíveis em tempo real num tablet e coordenar ordens de fogo em segundos.
  • O próximo nível: A monitorização constante de todo o espaço por sistemas apoiados por IA automatizará cada vez mais a tomada de decisão. O papel do soldado transforma-se de atirador em analista de dados e piloto de drones.

Este novo tipo de guerra deixa claro: conseguir um avanço militar rápido e decisivo torna-se cada vez mais difícil. A defesa ganhou uma vantagem temporária através da tecnologia de drones, o que contribui decisivamente para o atual impasse na guerra de trincheiras.

Como o conflito se apresenta atualmente bastante estagnado militarmente, coloca-se a questão dos possíveis níveis de escalada. Este é um ponto necessário, embora sombrio, para a análise diplomática. Temos de conhecer a escada de escalada para a contrariar.

A situação atual

O balanço ecológico da guerra

Além da tragédia humana e económica, a guerra na Ucrânia causa uma destruição ambiental maciça, muitas vezes irreversível, que vai muito além das fronteiras do país. O conflito deixa uma "terra queimada" e um balanço de CO2 catastrófico.

  • Emissões de gases com efeito de estufa: Estimativas de peritos indicam que a guerra já libertou mais de 175 milhões de toneladas de $\text{CO}_2$ (equivalentes de dióxido de carbono). Estas emissões provêm não só do combate direto (munições, consumo de combustível dos veículos militares e aviões), mas também da fase de reconstrução, do tráfego aéreo massivo para fornecimento de armas e ajuda, bem como dos incêndios florestais e de terrenos, desencadeados por bombardeamentos de artilharia.
  • Destruição de ecossistemas críticos: As linhas da frente atravessam reservas naturais importantes e florestas. O intenso bombardeamento de artilharia contaminou o solo em larga escala com metais e resíduos químicos (por exemplo, de combustíveis e explosivos). Além disso, instalações industriais e depósitos foram atingidos, levando à libertação de produtos químicos tóxicos no ar e na água.
  • O problema das minas: Milhões de minas terrestres e engenhos explosivos não detonados tornam enormes áreas agrícolas inutilizáveis e ameaçam a biodiversidade a longo prazo.

A destruição ambiental na Ucrânia não é, assim, apenas um problema local, mas um fator climático global, que contraria os esforços para limitar o aquecimento global e torna a recuperação do país uma tarefa ecológica e financeira gigantesca por gerações.

A frente interna: O cansaço da sociedade ucraniana

A resistência ucraniana, inicialmente uma onda de unidade nacional, luta hoje contra uma erosão da frente interna. O maior perigo para Kiev não é apenas o exército russo, mas o cansaço da guerra do próprio povo. Com centenas de milhares de vítimas, falta de avanços militares claros e a pressão de uma mobilização cada vez mais difícil, a moral inicial diminui. O fardo demográfico da guerra (fuga e perda de gerações) e a desigualdade percebida nos sacrifícios minam a confiança. Moscovo aposta estrategicamente que este cansaço interno e a esperança decrescente numa vitória levem a sociedade ucraniana a colapsar antes do aparelho de apoio ocidental.

Planos de paz

Os únicos esboços não oficiais para o fim do conflito, como o muito discutido Plano de 28 Pontos, provam como é difícil terminar a guerra. Tais planos preveem quase sempre que a Ucrânia tenha de aceitar cedências significativas – especialmente o reconhecimento das realidades territoriais (Crimeia, partes do Leste) – para acabar com a agressão russa imediata. Em troca, Kiev receberia certas garantias de segurança e ajuda financeira para a reconstrução. Tais esboços representam um grande desafio diplomático: Como se pode alcançar um compromisso que não traia a soberania existencial da Ucrânia e, ao mesmo tempo, permita a preservação da face de Moscovo? Enquanto estes planos forem interpretados por Kiev como "Capitulação sob coação" e por Moscovo como "Mínimo", permanecem notas diplomáticas que não resolvem o problema real – a falta de uma base comum.

O Plano de 28 Pontos é, por exemplo, uma tentativa de conciliar os interesses de segurança russos e a soberania ucraniana, aceitando amplamente o status quo territorial do controlo russo.

1. Cedências territoriais e traçado de fronteiras

  • Reconhecimento da realidade: A Ucrânia teria de renunciar à Crimeia e às regiões de Donetsk e Luhansk (ceder).
  • Divisão de território: Também em partes das regiões de Kherson e Zaporíjia deverá ocorrer uma divisão ao longo das atuais linhas da frente.
  • Retirada: Em troca, a Rússia retirar-se-ia de outras áreas, como partes de Kharkiv e Sumy.
  • Central Nuclear de Zaporíjia: A central nuclear ficaria sob a alçada da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA).

2. Restrições de política de segurança e militares (Principal preocupação da Rússia)

  • Ucrânia neutra: A Ucrânia deve consagrar na sua constituição que não aderirá à NATO. A NATO, por sua vez, deve declarar que não admitirá a Ucrânia no futuro e que não estacionará tropas na Ucrânia.
  • Limitação das forças armadas: O tamanho das forças armadas ucranianas deve ser reduzido a um limite máximo de 600.000 soldados (inicialmente falava-se também numa redução para metade).
  • Restrição de armas: A Ucrânia não deve possuir sistemas de armas de longo alcance que a Rússia considere ameaçadores (aqui refere-se possivelmente a mísseis de médio alcance e certos drones).
  • Pacto de não agressão: Deve ser celebrado um acordo abrangente de não agressão entre a Rússia, a Ucrânia e a Europa.

3. Garantias de segurança e financiamento (Preocupação ucraniana e ocidental)

  • Garantias de segurança fiáveis: A Ucrânia recebe garantias de segurança fiáveis dos EUA (embora a natureza exata destas garantias permaneça vaga). Estas garantias devem expirar caso a Ucrânia ataque a Rússia.
  • Reset de sanções: Caso a Rússia ataque novamente a Ucrânia após o acordo, todas as sanções entram novamente em vigor.
  • Reconstrução: Estão previstos investimentos massivos (na ordem dos 200 mil milhões de USD, em parte sob a liderança dos EUA e da UE) na reconstrução da Ucrânia, o que poderia ser interpretado como uma espécie de indemnização.
  • Adesão à UE: Uma adesão da Ucrânia à UE deve continuar a ser possível.

4. Conclusão política e humanitária

  • Amnistia: Todas as partes envolvidas no conflito recebem uma amnistia total.
  • Troca: Prisioneiros e mortos devem ser trocados segundo o princípio "todos por todos".
  • Eleições: 100 dias após a conclusão do acordo, devem realizar-se eleições na Ucrânia.

O plano visa, portanto, claramente garantir uma saída de guerra para a Rússia sem que Moscovo perca a face, enquanto exige a Kiev sacrifícios territoriais e de restrição de soberania.

A escada de escalada: A marcha para o abismo nuclear

O maior perigo na guerra da Ucrânia não é o impasse tático, mas a tendência inerente de um conflito limitado escalar descontroladamente. A doutrina nuclear russa, a ameaça de uma adesão da Ucrânia à NATO e o fornecimento de armas cada vez mais potentes pelo Ocidente formam uma mistura explosiva. Os níveis de escalada podem ser divididos da seguinte forma:

Nível 1: Escalada convencional (Já em curso)

Isto diz respeito a uma intensificação da guerra, sem intervenção direta de tropas da NATO.

  • Alargamento da zona de combate: A Rússia poderia tentar destruir massivamente a infraestrutura ucraniana (ferrovia, eletricidade, centros de comunicação) nas regiões ocidentais até agora relativamente seguras (por exemplo, Lviv), para interromper a logística do fornecimento de armas da NATO.
  • Fornecimento de armas ocidentais de longo alcance: O Ocidente fornece mísseis de cruzeiro que podem atingir alvos profundamente em território russo (Crimeia, Frota do Mar Negro, centros de comando). O uso destas armas para ataques a instalações militares nos territórios ilegalmente anexados pela Rússia ou mesmo em território estatal russo internacionalmente reconhecido ultrapassaria uma linha vermelha maciça.
  • Intervenção de aliados "não-NATO": O envio de conselheiros militares ou contingentes menores de países da NATO (por exemplo, França, Polónia) para a Ucrânia, para assumir logística ou treino. Moscovo consideraria isto como entrada de facto na guerra.

Nível 2: Confronto direto (mas limitado) entre a Rússia e a NATO

Aqui o perigo de um incêndio alastrar é maior, uma vez que começam confrontos diretos.

  • Ataque à logística da NATO: A Rússia ataca um fornecimento de armas da NATO diretamente em território da NATO (por exemplo, uma estação ferroviária polaca ou um comboio perto da fronteira), invocando o direito à autodefesa contra ameaças militares. Isto acionaria o Artigo 5 do Tratado da NATO, mas poderia ser inicialmente avaliado pelos estados da NATO como um ataque limitado (com o objetivo de evitar uma retaliação abrangente).
  • Violações do espaço aéreo e incidentes fronteiriços: Aumento de confrontos no Mar Báltico ou no Mar Negro entre forças aéreas ou navais russas e da NATO. A violação deliberada ou inconsciente de territórios soberanos, que poderia levar a um abate.
  • Guerra cibernética: A Rússia realiza um ataque cibernético massivo a infraestruturas críticas de um estado da NATO (por exemplo, a rede elétrica ou o sistema financeiro), que leva a vítimas mortais ou danos catastróficos. A NATO teria de decidir se isso já constitui um ataque armado no sentido do Artigo 5.

Nível 3: Escalada nuclear não estratégica (Tática)

Este é o limiar que não foi ultrapassado desde 1945. Armas nucleares táticas destinam-se ao uso no campo de batalha contra alvos militares, para evitar uma derrota convencional ou desencadear um choque político.

  • O gatilho: A Rússia vê-se num ponto em que a consecução dos objetivos de guerra (por exemplo, o controlo sobre os territórios anexados) ou a existência do regime se torna impossível. A doutrina nuclear russa permite o uso de armas nucleares como “último recurso para garantir a soberania do estado”.
  • Os cenários de aplicação:
    • Ataque demonstrativo: Detonação de uma arma nuclear sobre uma área desabitada (por exemplo, o Mar Negro ou uma área desabitada na Sibéria), para sinalizar ao Ocidente a determinação de Moscovo.
    • Uso tático contra a Ucrânia: Uso de uma baixa potência explosiva contra um nó militar, uma grande área de concentração ucraniana ou um bunker profundamente subterrâneo.
  • A reação ocidental: A NATO enfrentaria a decisão mais difícil da história. Uma não reação aceitaria a quebra do tabu nuclear pela Rússia. Uma reação nuclear significaria o fim da civilização. Mais provável seria uma retaliação maciça e convencional da NATO contra as unidades russas na Ucrânia, sem usar armas nucleares, para manter a escalada controlada.

Nível 4: Escalada nuclear estratégica (Global)

Este passo significa o uso de mísseis intercontinentais (ICBMs) contra o território nacional do adversário, o que levaria a um holocausto nuclear abrangente.

  • O estágio final: A NATO decide, após um ataque nuclear tático, uma retaliação que a Rússia interpreta como ameaça existencial, ou uma cadeia de comunicação colapsa. Um ataque estratégico ao território da NATO (por exemplo, bases dos EUA na Europa) desencadeia a destruição mútua assegurada (MAD). O fim da escada de escalada é a catástrofe global.

Qualquer iniciativa diplomática deve visar permitir um regresso ao Nível 0. A escada de escalada é uma encosta; quase não há degraus seguros onde se possa parar. O perigo reside no facto de uma das partes em guerra definir o limiar nuclear tático mais baixo do que a outra. Aqui aplica-se a sabedoria: "A humanidade deve pôr fim à guerra, ou a guerra porá fim à humanidade."

A influência da Alemanha no conflito, a sua vulnerabilidade geoestratégica e o seu papel numa potencial escalada são de importância decisiva. A Alemanha não é hoje apenas um aliado, mas o pilar logístico e financeiro central do apoio ocidental.


Ukraine

O eixo alemão: Placa giratória logística e alvo geopolítico

A Alemanha desempenha um papel ambivalente neste conflito: enquanto agiu hesitantemente durante muito tempo devido ao seu fardo histórico e à sua cultura pacifista do pós-guerra, é hoje de facto a principal artéria logística da ajuda da NATO e o maior contribuinte europeu. Esta posição central torna-a um alvo inevitável em caso de escalada.

O Papel Geopolítico e Logístico

  • A placa giratória logística: Geograficamente, a Alemanha situa-se no coração da Europa e funciona como "base de abastecimento" e "ponte" para todo o fornecimento de armas da NATO para a Ucrânia.

    • Centro de treino: Uma grande parte dos soldados ucranianos é treinada na Alemanha ou em bases alemãs noutros países da NATO.
    • Manutenção de armas: Estaleiros e instalações de manutenção alemães reparam e mantêm sistemas de armas ocidentais (tanques, artilharia).
    • Deslocamento de tropas: Em caso de conflito no Leste, a Alemanha é a área central de concentração (Staging Area) para tropas dos EUA que vêm através do Atlântico, antes de serem deslocadas para a Polónia ou para o Báltico. As bases dos EUA (por exemplo, Ramstein, Grafenwöhr) são nós essenciais.
  • A âncora financeira: Como maior economia da UE, a Alemanha é o principal garante da estabilidade financeira e económica do corredor de solidariedade europeu. A "vontade" da Alemanha de continuar a ajuda é estrategicamente mais importante para Kiev e Washington do que o apoio de muitos pequenos estados da UE.

Alvos numa escalada russa

No caso de um confronto direto e crescente (Nível 2 da escada de escalada), a Rússia não aspiraria a uma invasão em grande escala da Alemanha – isso seria um suicídio estratégico e nuclear. Em vez disso, o adversário realizaria ataques precisos, assimétricos e disruptivos, para cortar o eixo de apoio e desestabilizar a sociedade alemã.

1. Alvos militares e logísticos (Alvos para paralisar a NATO)

Estes alvos servem para destruir a capacidade da Alemanha de apoiar Kiev e defender o flanco leste.

  • Placas giratórias militares e bases:

    • Bases dos EUA (Ramstein, Grafenwöhr): Estes locais são críticos para comando, controlo, comunicação (C3) e logística. Um ataque bem-sucedido interromperia a cadeia de abastecimento transatlântica.
    • Armazéns de armas e centros de manutenção: Locais onde os sistemas Patriot, tanques Leopard ou mísseis de cruzeiro Taurus são armazenados ou mantidos. A destruição diminuiria o poder de combate do exército ucraniano.
  • Infraestrutura de transporte (Logística):

    • Portos (Hamburgo, Bremerhaven): Decisivos para a chegada de material dos EUA.
    • Nós ferroviários e pontes: Ataques direcionados a pontes-chave sobre o Reno ou o Elba poderiam dificultar massivamente o transporte rápido de tropas e material para leste.

2. Infraestrutura civil crítica (Alvos para desestabilizar a sociedade)

Estes alvos servem para criar o caos, acelerar a decadência de Dalio e quebrar a vontade política para a guerra.

  • Energia e Comunicação:

    • Cabos submarinos: Cabos no Mar do Norte e Báltico, que suportam a comunicação transatlântica e intra-europeia. Uma perturbação dificultaria massivamente as transações financeiras e a comunicação militar.
    • Redes elétricas e centros de dados: Ciberataques direcionados ou sabotagem em subestações e centros de dados, para paralisar partes do país.
  • Liderança e Centros Financeiros:

    • Bairro governamental em Berlim: Alvos simbólicos e factuais, para perturbar a tomada de decisão política.
    • BCE em Frankfurt/Bolsa: A paralisia do centro financeiro maximizaria a instabilidade económica, o que alimenta o medo de uma hiperinflação (ver análise de Sinn).

A ameaça à Alemanha seria, portanto, primariamente assimétrica e concebida para neutralizar a função do país como hub logístico e desestabilizar psicologicamente a sociedade. O adversário sabe que um fortalecimento militar da Alemanha sem infraestrutura estável e aceitação social não é possível. O facto de agora se investir novamente fortemente em infraestrutura tem, pelo menos, o sabor de que pode tratar-se também de preparação para a guerra.

Excurso IV: A dependência desenredada – O choque das sanções

As relações económicas entre a Rússia e a UE estiveram organizadas durante décadas segundo um princípio simples: A Rússia fornece matérias-primas, a Europa fornece tecnologia e capital. Este entrelaçamento simbiótico foi cortado abrupta e brutalmente pela guerra, com ondas de choque massivas para ambos os lados.

1. O eixo energético: A UE como maior cliente

Antes da invasão, o abastecimento energético era o centro do entrelaçamento. A Rússia usava essa dependência como alavanca geopolítica, enquanto a UE beneficiava de fornecimentos baratos e estáveis.

  • Gás natural: A dependência da Europa era maior aqui. Em 2021, mais de 40% das importações de gás da UE provinham da Rússia. Países como a Alemanha, a República Checa e a Áustria foram particularmente afetados. A destruição dos gasodutos Nord Stream e a redução dos fornecimentos russos foi o maior choque de política energética desde a década de 1970 e levou à crise energética aguda de 2022.
  • Petróleo: A UE era também o maior comprador de petróleo bruto russo. Sanções (embargo de petróleo) e a introdução de um teto de preço (G7 Price Cap) reduziram fortemente estes fornecimentos, mas não os terminaram completamente. A Rússia vende agora o seu petróleo cada vez mais à China e à Índia (com descontos de preço), enquanto a Europa importa petróleo caro dos EUA, do Médio Oriente e de outras fontes.
  • Combustíveis nucleares: Uma dependência menos notada, mas crítica, existe nas varetas de combustível nuclear e no enriquecimento de urânio. Muitas centrais nucleares europeias e da Europa de Leste (que ainda se baseiam em tecnologia soviética) dependem de serviços e combustíveis russos. Apesar das sanções, esta área foi muitas vezes poupada, pois uma mudança imediata teria colocado ainda mais em perigo a segurança energética.

2. A guerra das matérias-primas: Metais e Terras Raras

A Rússia é um fornecedor importante de metais industriais essenciais para a produção europeia.

  • Paládio: Um metal-chave para catalisadores em carros e eletrónica. A Rússia é o maior ou segundo maior produtor mundial.
  • Níquel e Alumínio: A Rússia é um importante produtor destes metais, necessários na aviação, na indústria automóvel e em baterias.
  • Titânio: Para a indústria aeroespacial europeia, a Rússia era uma fonte central. A procura de cadeias de abastecimento alternativas é cara e demorada.

As sanções forçaram a Europa a diversificar as cadeias de abastecimento. Isto é estrategicamente sensato, mas leva a custos mais elevados a curto prazo e alimentou adicionalmente a inflação.

3. Outros serviços e tecnologia

O entrelaçamento estendia-se também ao setor dos serviços:

  • Setor financeiro: Antes da guerra, Londres era um centro importante para obrigações russas e gestão de ativos (Londongrad). As sanções separaram os grandes bancos russos (VTB, Sberbank) do sistema SWIFT, o que torna as transações internacionais quase impossíveis.
  • TI e Software: A Rússia era um fornecedor de serviços de TI especializados e mão de obra qualificada. A retirada de empresas ocidentais de TI (Microsoft, SAP, Oracle) da Rússia levou lá a uma aceleração do desenvolvimento de soluções de TI próprias e autárquicas, enquanto o Ocidente teme problemas de segurança informática.

4. O balanço

A separação destes entrelaçamentos, que está longe de estar concluída, atingiu a UE duramente, pois teve de encontrar rapidamente alternativas para a energia. Isto foi conseguido até agora apenas em parte, mas a custos extremamente elevados.

A Rússia, por sua vez, estabilizou as suas fontes de rendimento (através da venda a preços mais baixos a outros países), mas perdeu o acesso a tecnologia de ponta ocidental e a serviços de manutenção essenciais (por exemplo, para a extração de petróleo e gás). Isto leva, a médio prazo, a uma queda da produtividade e estagnação tecnológica.

O entrelaçamento do passado está a ser cada vez mais destruído. O desafio do futuro é encontrar e construir novas sinergias, se os sistemas políticos o permitirem.

O Fim da Tragédia: Três cenários para o desfecho da guerra

Tanto Vladimir Putin como Volodymyr Zelensky gostariam de sair do conflito como heróis vitoriosos. Mas uma guerra raramente termina como foi planeada. Termina quando uma das partes está convencida de que os custos de continuar a lutar excedem os custos de desistir. Face aos campos de batalha de vidro (Excurso III) e à divisão económica (Excursos II, IV), os desfechos possíveis são muito limitados e todos marcados por profunda incerteza.

Cenário I: A Paz Fria (Congelamento do conflito) – O resultado mais provável

Este é o fim que mais provavelmente ocorrerá se nem Kiev nem Moscovo tiverem a força militar para um avanço decisivo e o Ocidente se cansar no seu apoio devido a tensões económicas internas (Excurso II).

  • O desenrolar: A frente estabiliza-se ao longo da atual (ou ligeiramente deslocada) linha de contacto e solidifica-se numa nova "Linha de Controlo" com profundos campos de minas (Prólogo). Os combates de tipo intenso cessam, mas transformam-se num conflito permanente de baixa intensidade (duelos de artilharia, guerra de drones). Não existe uma declaração formal de paz ou um acordo abrangente.
  • A realidade no local: A Rússia mantém o controlo sobre os territórios anexados (Crimeia, partes do Sul e Leste). A Ucrânia não renuncia formalmente a este território, mas já não exerce controlo efetivo.
  • A Consequência Geopolítica:
    • O novo muro: A Europa recebe uma nova linha divisória nítida. O flanco leste da NATO é rearmado massiva e permanentemente, uma vez que o perigo de um reinício da invasão existe a qualquer momento.
    • Sem paz, apenas pausa: Este cenário recompensa a agressão russa através da posse de facto dos territórios conquistados. Não haveria desanuviamento entre a Rússia e o Ocidente, mas uma continuação da guerra fria com sanções permanentes (Excurso IV). A Ucrânia não se torna membro da NATO nos territórios ocupados, mas recebe possivelmente garantias de segurança dos estados da NATO para o território ucraniano livre.
    • O Dilema Económico: O Ocidente tem de apoiar a Ucrânia permanentemente financeiramente e, ao mesmo tempo, financiar o rearmamento ("Fundo especial" da Alemanha). Isto sobrecarrega a estabilidade monetária e os orçamentos em tempos de inflação e carga da dívida (Excurso II).

Cenário II: O Avanço Militar (Vitória por Colapso) – O menos provável

Este fim requer uma mudança tectónica de forças, seja através de uma ofensiva ucraniana ou de um colapso russo.

A. Vitória pela Ucrânia (Recuperação de território)

  • O desenrolar: O Ocidente fornece em pouco tempo armas de longo alcance e sistemas de defesa aérea suficientes para destruir sistematicamente as linhas de abastecimento russas. O exército ucraniano usa uma nova superioridade tecnológica (vantagem de drones/IA) para um avanço rápido, que força o exército russo a uma retirada desordenada.
  • A Consequência: Isto aumentaria dramaticamente a disponibilidade do Kremlin para negociar. Moscovo seria forçado a abandonar os territórios ocupados (com exceção da Crimeia).
  • O perigo de escalada: Este caminho encerra o maior perigo de escalada nuclear (Excurso V). Face a uma derrota convencional iminente (que Putin consideraria como ameaça existencial), a probabilidade de um ataque nuclear tático segundo a doutrina nuclear russa é maior.

B. Vitória pela Rússia (Colapso do apoio à Ucrânia)

  • O desenrolar: O apoio ocidental colapsa devido a divisão política interna (EUA/UE) e dificuldades económicas (inflação, dívida). A Rússia usa a sua maior população e capacidade de produção (Economia de atrito) para atropelar lentamente as linhas ucranianas.
  • A Consequência: Kiev é forçada a abandonar todos os territórios e torna-se um estado-tampão fantoche, que perde a sua ligação ao Ocidente.
  • A Catástrofe Geopolítica: Isto danificaria irreversivelmente a credibilidade da NATO e sinalizaria à Rússia que a agressão compensa. O domínio russo na Europa de Leste seria restaurado, o que aumenta drasticamente a probabilidade de conflitos futuros com os estados bálticos ou a Polónia.

Cenário III: A Paz Negociada (A solução diplomática) – A esperança mais improvável

Este desfecho seria o ideal, mas requer uma mudança nos objetivos maximalistas de ambos os lados (ver acima - posições Putin vs. Zelensky).

  • O desenrolar: Ocorre uma verdadeira situação de impasse, na qual os custos militares para ambos os lados são tão altos que a pressão política em Moscovo e Kiev (e no Ocidente) força as negociações. Um terceiro ator (por exemplo, a China ou a Turquia) tem de oferecer um quadro credível.
  • O modelo de compromisso:
    • Ucrânia: Recebe garantias de segurança massivas (sem adesão total à NATO, mas com defesa de facto), para impedir ataques futuros.
    • Rússia: Recebe uma espécie de reconhecimento do status quo da Crimeia, mas tem de deixar os outros territórios ocupados.
    • A Neutralidade: A Ucrânia compromete-se com a neutralidade (sem adesão à NATO), mas com a adesão à UE e capacidade de autodefesa ilimitada.
  • O principal obstáculo: Nenhum dos dois líderes pode sobreviver politicamente a tal compromisso neste momento. Putin não pode aceitar uma retirada, Zelensky não pode aceitar uma cessão de terras. As narrativas históricas profundamente enraizadas e as perdas gigantescas (Prólogo) ergueram um limiar moral que proíbe negociações.

A ilusão da zona tampão

O sonho de uma Ucrânia neutra como zona tampão estável entre a NATO e a Rússia é, numa análise sóbria, uma ilusão que contradiz o princípio fundamental do poder. Tanto na sociedade como na política internacional não existe vácuo de poder. Uma zona que não possui uma estrutura de poder dominante e não é protegida por um sistema de garantias de segurança nítido e credível, forma uma lacuna de poder. É da natureza do poder – seja político, militar ou económico – expandir-se e fechar qualquer lacuna. Tal espaço neutro não seria visto por ambos os lados como uma zona de desanuviamento permanente, mas como um portão de entrada e zona de influência potencial. O passado mostrou: Se a Ucrânia não for protegida por um bloco poderoso, tornar-se-á inevitavelmente um joguete e potencial área de expansão do vizinho mais poderoso. A questão é apenas quem exerce, ou exercerá, o poder em Kiev.

Fazit

Se pesarmos todos os fatores – a visão de Kiev e Moscovo, o fardo económico do Ocidente e o impasse tecnológico militar –, o congelamento do conflito (Cenário I) é o desfecho mais triste e provável. Este conflito não terminará com um tratado de paz solene, mas com um silêncio exausto. Se acabar assim, podemos perguntar-nos a cada dia que a guerra dura: Não poderíamos ter alcançado isto com muito menos sofrimento humano e sem toda a destruição ambiental?


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